Porto Alegre, Rio Grande do Sul, foi meu espaço de pesquisa por quase dois anos. Voltei a minha cidade natal 18 anos depois de tê-la deixado.

Comemoramos juntas a maioridade da nossa distância com uma série de experiências que incluíram performances, fotografias, vídeos, poesia, encontros e desencontros. Comecei criando um breve diário para acompanhar os primeiros passos de jornada (que está na íntegra mais abaixo).

Dos desejos iniciais quase nada se concluiu. A cidade mudou em mim. Eu me transformei dentro dela. Andei pelo mundo “encontrando gente”. Me transformando nas esquinas. Achando sentidos nos livros sobre fotografia, imagem, literatura, urbanismo. Me transformei muito em Porto Alegre – cidade da minha família.

Ir para a terra dos pais tem sempre o peso e a leveza familiares. Aliás, a melhor definição de família que já li é de Susan Sontag quando escreve sobre a fotografia como instrumento de criação de uma memória: “a família é uma unidade claustrofóbica”.

familia para susan sontag
Além da família outros grupos se formaram comigo. Um deles me veio por uma prima queria, grande pesquisadora da narratividade da urbanidade – Daniele Caron. Comecei participando de um grupo de pesquisa de Identidade e Território.

Depois experimentei a cidade a partir da metodologia da mulher da dança Carla Vendramin com quem fiz uma oficina sobre o Corpo e o Ambiente. As proposta da Carla foram uma catarse para mim. Entrei no mode performer e demorei um ano e meio para sair dele. A partir do desejo do encontro performático do corpo com o ambiente segui experimentando. No caminho cruzei com outras pessoas muito importantes. Letícia Castilhos virou minha parceira de experiências na cidade. Giuliano Lucas um ótimo propositor de inquietações e excelente fotógrafo com quem elaborei uma série de fotopoemas. Uma raspinha destas experiências seguem ali abaixo:

EuMedusaMedeia

20Afemale parts inside a park, por Giuliano Lucas7877_530852700264000_609038727_n 375884_530853630263907_83434200_n 530094_530852213597382_1498152008_n

Tides

tides | “Baseado em fatos reais (Why do I need Feminism from Gabriela Canale on Vimeo.

Corpo Ambiente

Tableau Vivant

Why do I need Feminism

Why do I need feminism? from Gabriela Canale on Vimeo.

E Ela Fugia (2012)

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DIÁRIO DE INÍCIO DE VIAGEM EM PORTO ALEGRE IMAGINADA:

Depois da SP Residência Artística em que transformei a escrita urbana de São Paulo em intervenções, fotos e filme passei a Porto Alegre. Ganhei uma nova casa para minha curiosidade, um novo território físico e afetivo que pretendo percorrer e criar. Reafirmo em mim a proposta de ter a cidade como tema. A cidade instaura, no meu processo, a alteridade. Torna clara a dimensão relacional que eu quero ter. E, mais ainda, me coloca em movimento, em contato, em mobilidade (interna, na cidade, na mudança de cidade).

1. As referências não podiam ser outras: Mário Quintana e o mapa da cidade.

Nestes dias que virão quero assentar estes desejos. Quero algo mais focado e simples que o processo que vivi em São Paulo. Engraçado, tenho propostas muito claras para outras cidades que irei investigar, como Buenos Aires e Berlim, mas Porto Alegre ainda é dilemática, ainda é obscura. Vou restituindo o lugar do simples. Vou acalmando a vontade da partida e do novo começo.

meu mapa de carne

2. Como projetar uma ideia sem estar na cidade?

kurt-weston

Como modelar um projeto de residência sem senti-la. Sem perceber o ritmo do Centro, sem olhar pros meninos que habitam as ruas, sem saber se existe ou não grafites em todos os lugares, sem sonhar com o céu sem a faixa cinza de poluição, sem estas experiências como saber o que fazer na cidade?

Há a intuição, que é forma menos descritiva de chamar o conhecimento. Intuição é um conhecimento tão profundo que é quase imediato. E é ela quem me ensina que sim, preciso de um projeto. Sem projeto, tudo é caos informe. E arte, por mais paradoxal que soe, é algum tipo de organização. Um artista precisa organizar-se no tempo, no espaço. Mapear as vontades, escolher.

Recolhi vários aprendizados do projeto que  finalizo [SP Residência Artística]. Um dos mais relevantes é meu interesse pela relação entre a fotografia e o filme, entre a fotografia e a literatura. Relações que só ficaram claras com a leitura de “A Fotografia como Arte Contemporânea”, de Charlotte Cotton. Este livro me deu um prazer muito grande. Perceber que tantos outros artistas também se interessam pela fotografia como parte da obra, como pensamento sobre um processo  me deu a clareza de gostar do tema ainda mais e perceber muitas outras potências nestes assuntos.

Hoje, devorando “Reflex de A a Z”, de Vik Muniz, pude acompanhar o longo processo que levou o artista a optar pela fotografia. Vik é exemplar neste sentido, quer dizer, no sentido de trabalhar com diferentes materiais, ter a fotografia como formato final e, mais do que isso, ter o pensamento sobre o fotográfico como tema dos seus trabalhos. A escrita leve, ácida, sincera de Vik faz a trajetória dele ainda mais interessante.

Pois este pensamento fotográfico me toma. Além do exercício diário de fotografar e compartilhar do Multigraphias e das fotos jornalísticas que faço para o Mistura Urbana há a pesquisa teórica que desenvolvo para o doutorado em que penso na contaminação da fotografia no campo da literatura contemporânea.

Pois bem, vem daí duas vontades que quero organizar para praticar em Porto Alegre. Quero sim delimitar um projeto anterior à cidade. Claro que ele se abre e renova no espaço sempre novo da cidade,  mas esta ordem é cara para mim, sobretudo porque se trata de uma cidade tão especial, tão importante, tão funda. Quero me envolver com ela artisticamente, mas não acho afetivamente seguro invadir camadas fundas, obscuras, de memórias longínquas já que foi lá que nasci e passei minha infância e adolescência. Quero algo novo, processual, refletido. Ter um projeto será uma forma de me colocar neste espaço de maneira mais artística, menos cruamente confessional. O projeto é ao mesmo tempo uma proteção e uma permissão para me auto-investigar. Porque por mais estrito que seja, obviamente estarei me colocando nele. E tendo sempre a achar que a obra de arte de alguma forma é sempre confessional, mas aquela que é mediada, refletida, depurada é mais potente e interessante.

Bem, definido porque acredito na ideia de um projeto anterior à experiência absorta na cidade, vamos em frente.

São duas ideias de projeto que esbocei para desenvolver em Porto Alegre. Ambos passam, se embrenham e significam pela fotografia:

1. Transportar objetos e fotografá-los em espaços em que pareçam incongruentes. Brincar com o deslocamento e com o registro do objeto em um novo cenário. É como se eu perguntasse: – como isso veio parar aqui?
O registro é fotográfico e o processo seria todo pensado em função da fotografia. Além disso, a brincadeira do deslocamento é uma metáfora do próprio funcionamento da fotografia. Ela é o recorte do espaço, ela secciona e mostra em outro tempo e outro espaço algo que houve. A fotografia é sempre um deslocamento. Ao olhar para um retrato, por exemplo, fitamos os olhos de alguém que talvez nem exista mais em um lugar que provavelmente se transformou. A fotografia sempre pergunta: como isso que você está vendo veio parar nas suas mãos, sob seus olhos?

O trabalho final seria uma séria fotográfica, os objetos deslocados pela cidade e um filme que revelasse um pouco da ideia.

2. A segunda ideia é um pouco mais complexa e escolhe outra questão levantada pela fotografia. A ideia é comprar uma fotografia em uma feira de domingo em que se vendem fotos de família antigas. Eu a compraria mas NUNCA olharia para ela. Então convidaria 6 pessoas para me contar o que está na fotografia. Eu jamais olharia a imagem. Mas tentaria sabê-la pelo contar dos outros. Ao contar a imagem as pessoas buscariam suas imagens mentais, seus repertórios particulares. A cada descrição de imagem me traria uma nova fotografia. Eu gravaria o momento da compra da imagem e também o encontro com as 6 pessoas – que eu poderia escolher ou recrutar por convites em jornais. Então, a partir da descrição da imagem eu criaria minha fotografia, refaria em imagem fotográfica o que me fora contado. Poderia usar qualquer matéria-prima, como pessoas, metais, nuvens, palavras, qualquer elemento. Depois mostraria minha imagem à pessoa e conversaríamos sobre ela. Momento que eu também filmaria.

Os trabalhos finais deste processo seriam as fotos que eu criaria de fotografia que eu nunca vi e um filme que mostrasse um pouco deste processo, sempre revelando as descrições das imagens mas NUNCA mostrando ela ao público.

Bem, há as duas ideias, das quais gosto bastante. Talvez faça ambas, talvez faça uma delas em outra cidade. Talvez as amadureça.

 3. entre cidades

entre cidades
Este projeto de residências artísticas sobre diferentes cidades nasceu como vontade há uns três anos em uma viagem à Buenos Aires. Fiz muitas fotos, vídeos, capturei sons. Tive uma ânsia por misturar minhas cidades afetivas. Este projeto teve nomes temporários como SãoPortoAires. Eu tinha uma intuição de uma relação entre cidades, estava tateando vontades, mapeando formatos. Foi aí que surgiu oMultigraphias, o projeto que hoje tem mais de um ano e já recebeu mais de 20 artistas e dialogou com mais de 40 cidades em 10 países.

Multigraphias é uma conversa diária que acontece por meio de palavras, fotos, vídeos, sons, montagens em que pessoas e cidades se relacionam. Bem, esta série de residências que pretendo fazer sobre cidades é um braço do Multigraphias. É uma pesquisa pessoal que desenvolvo em paralelo já que senti que desejava ter mais coerência e um projeto mais coeso individual do que trocar com outros artistas.

Pois bem, ontem o Multigraphias me trouxe um presente que tem muita relação com o momento que vivo das residências. Estou deixando São Paulo em uma semana. Logo mais iniciarei uma residência sobre Porto Alegre. Na verdade sou ansiosa e já comecei a esboçar algumas ideias aqui.

Pois ontem postei no Multigraphias um montagem de uma carta que enviei a pedido de um artista residente, o Joelson Bugila. Um jovem artista que tem umtrabalho muito interessante com os sons da cidade e com intervenções urbanas. Joelson reside em Porto Alegre, portanto a carta tem remetente de São Paulo e destinatário de Porto Alegre. Como não é meu costume enviar cartas, estranhei. Pensei sobre o deslocamento material dela que é o mesmo que farei em alguns dias.

Fiquei emocionada com a resposta criativa do Joelson, que sobrepos os mapas de São Paulo e Porto Alegre sobre as cartas. Vi a cartografia das minhas residências artística que logo se encontrarão. A imagem é minha questão atual. Finalizarei a residência de SP fora daqui, quero ter a distância necessária. Ao mesmo tempo uma nova residência se inicia. Como se dará este encontro?

4. chegar e transitar

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Entre São Paulo e Porto Alegre preparo meus olhos em Curitiba.
Dias de descanso de ver. Dias de escrever e pensar a literatura. Dias de congresso internacional de literatura comparada.

Uma grande ânsia pela escrita. Um prazer que redescubro sempre. Talvez aquilo que eu mais tenha facilidade e prazer em fazer. Mas a escrita nunca me basta. Ela é um estágio de estar neste mundo conturbado. E as ruas quase limpas de Curitiba, e as ruas quase vazias de Curitiba, e a raridade dos grafites, e a nulidade das pichações. Cadê a vida visual da metrópole?

Curitiba me faz pensar que talvez haja cidades que não me mobilizem instintivamente como São Paulo. Talvez Porto Alegre me traga menos perguntas. Há algum receio de perder minha questão com a cidade. Porque preciso me mover nela, porque preciso amá-la, mesmo no desgosto, porque preciso querer me conectar a ela. Preciso pulsar a cidade, penetrar algum mistério intermitente.

Não sei se todas as cidades me colocam nesta estado de mobilidade.
O que hoje me questiono é que o projeto que idealizei para Porto Alegre me coloque menos em contato com a cidade. Como a ideia central é investigar as imagens imaginadas a partir de relatos sobre uma fotografia que eu jamais verei me pergunto se não perderei o olhar investigativo para a cidade.

Acho que preciso de pequenas ações nesta residência, de gestos menores que me coloquem em contato com ela. Algo intermediário entre uma ação central que será o produto final da residência e o estágio de me colocar na cidade. Ações de conexão com a cidade.

Mas, por outro lado, tendo a achar que desenvolver vários projetos é um complicador. Minha forma natural de trabalhar é limpar, limar, simplificar. E estas muitas ações complicam.

Enfim, receio não ter o deslumbramento e desejo que São Paulo me trouxe.
Receio também desenvolver um projeto que me afaste da cidade.
O poema do Ygor Raduy me ajuda a pensar tudo isso:

5. Peço permissão para chegar com alguma ousadia

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Peço permissão para que meu projeto de arte na cidade também seja um projeto literário. Será possível conciliar versos, performances, intervenções e fotografias?

Eu intuo que, no fundo, tudo é poesia. Tudo para mim são palavras trabalhadas sobre o espaço. Palavras ditas em formatos outros. E a arte talvez seja como construimos outras ferramentas para lidar com elas, as palavras. Parar de negar quão literário é meu processo me liberta. Dilui a rigidez entre literatura e artes. Uma rigidez que é menos minha e mais dos programas de pesquisa, do mercado. Uma separação que é mais dos espaços e dos nomes dos circuitos de circulação de arte.

Não preciso manter esta distância entre as imagens e as palavras dentro de mim, dentro dos meus processos.

Tentarei a ousadia da literatura e das outras artes que a expandem, retraem, confundem, encontram. Por que eu sou um ser das palavras, do anacronismo do verso sobre o papel. Porque minha história com a cidade também é literária. Porque talvez os versos sejam meus mapas.

{então, o que se seguirá, creio que seja um registro de como encontrarei este caminho. um caminho de cartografia híbrida. da minha ousadia de tentar a ousadia de versos, fotografias, intervenções, colagens.}

6. o artista é um obsessivo, um apaixonado

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Sei que tenho um projeto de arte quando algum tema se torna uma questão essencial. Quando me apaixono por ele. Estou me apaixonando por Porto Alegre. E me apaixonando pela ideia de criar parêntesis na cidade. Em outro momento explico de onde vem os parêntesis que roubei do Mário Quintana e de uma estratégia de um escritor-parceiro (Thales Alves) para uma escrita em camadas.

Me apaixonei por Porto Alegre pegando um ônibus, deixando as lotações (mais caras e chics). Percorrendo a cidade pagando R$ 2,70, vendo a estrutura de deslocamento dela.

7. Mapa de desejos

Hoje joguei com meu  MAPA DE DESEJOS. O que é isso?

É uma série de pequenas e simples experiências que quero fazer antes de definir meu projeto para POA. Ações singelas que me trarão conhecimento empírico sobre a cidade e meus entendimentos dela. O processo desta forma é muito apaziguador porque me tira do labirinto das hipóteses teóricas e me joga dentro dos discursos, dilemas, fronteiras da cidade.

Decidi realizar uma ação, que ainda não sei como será. Ela nasceu em mim há alguns dias. Uma vontade de criar pequenas caixas de memória e colocá-las em espaços públicos. São os MONUMENTOS EFEMEROAFETIVOS.

Decidi convidar a minha mãe, a artista Margareth Miola. Seguimos estes processos:

1. Pensamos nos diferentes tempos dos objetos:

a) o tempo da permanência dos monumentos públicos e de como eles não fazem parte, em geral, dos desejos das pessoas que os rodeiam.

b) no tempo das vitrines e da moda que acelera os processos de aquisição e objetos. O desejo pelo novo quase sempre desenraizado que propõe o acúmulo, o descarte.

c) o tempo dos objetos guardados, que se preservam em caixas de memória. O afeto que eles despertam e desejam preservar. Objetos para além do tempo do consumo da moda.

2) Criamos  uma caixa de memórias com dois objetos de nossas memória, minha e da minha mãe. Escolhemos uma foto antiga com dedicatória e um laço com o nome da nossa família de um convite de festa.

3) Selecionamos outros objetos de memória. Estes coletamos em um parque. Quisemos objetos encontrados que sugerissem  outras memórias. Colocamo-os também na caixinha. (folhas, sementes, embalagem de lubrificante sexual, pedra, pinha, pedaço de Jornal noticiando a prisão de Paulão, chefe de uma boca de fumo).
Encontrar os objetos, conversar sobre o percurso, compartilhar experiências sobre o lugar foi muito interessante.

4) Por fim, nossa caixa está repleta de diferentes memórias, nossas, outras, que acabaram também por se tornar nossas.

5) O último passo será deixar a caixa em um banco de praça. Isto é, abandonar estas memórias inventadas e articuladas.

8. uma conversa

vem

Eu quero te contar o que acontece. Quero te escrever esta carta imaginária. Quero te dizer: cheguei aqui em uma noite de julho. E tudo que existia na cidade era uma imensidão negra e luzinhas coloridas.  E era tudo um desejo de voltar. Depois de 17 anos – voltar. Voltar com as retinas exaustas. Com os olhos exaustos de ver. Eu queria te dizer: “Não posso mais ver. Porque toda vez que eu olho eu existo. Eu quero desexistir. Quero, lentamente, retornar”. Mas não te disse. Guardei as palavras. Guardei a imagem. Por isso agora te escrevo. Por que não é possível guardar, nada é possível guardar. Aí está, veja. Olha. Reconhece a cidade. Desconfia comigo das luzes da noite.

Vem? Vem comigo, 17 anos depois. Retorna para um lugar que não existe mais.

9. mapas

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mapas poa 6



Cresce o desejo de percorrer a cidade. Meu mapa? Um poema! E eu leio, releio e obedeço.
Imprimo meu corpo e os versos e brinco de cortar e colar.
Faço colagens enquanto decido como percorrer a cidade.

Monto meu caderno de registros.

11. A paisagem no mundo digital e familiar

“Todas as direções são equivalentes, o espetáculo se torna a exploração de um território, viagem a um espaço de dados. (…) nós nos deslocamos num espaço de ideias, num mundo de pensamentos e de imagens tal como aquele que existe no cérebro e não no projeto de um urbanista”
B. Viola
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